Bruno Motta

O jornal carioca O Globo publicou matéria essa semana trazendo comentários bem preconceitusoso por parte da tribo "clássica" do teatro tradicional dirigidos à nossa classe, a da comédia stand up. Como parte de um manifesto, publico aqui a INCRIVEL carta de Cláudio Torres Gonzaga para o jornal:

"Ao ler a matéria de capa do Segundo Caderno de O Globo deste domingo, fiquei surpreso com algumas declarações de colegas de profissão a respeito da comédia stand-up.

A afirmação de que stand-up não é teatro me pareceu não apenas equivocada, mas também bastante preconceituosa.

Por que stand-up não seria teatro?

Ao contrário do que foi dito por um dos autores ouvidos na reportagem, o comediante stand-up não é um “contador de piadas de almanaque”. Ele escreve seus próprios textos, os quais são registrados, para garantir a proteção dos direitos autorais sobre os mesmos. E os encena para o público usando suas habilidades, digamos, teatrais. Um ator, um texto. Teatro.

É verdade que o gênero prescinde de personagens. São monólogos encenados pelo próprio autor, que utiliza sua persona cômica para tirar graça de situações cotidianas. Não vejo, porém, como isso possa ser usado como argumento para deixar o stand-up de fora do amplo guarda-chuva dos gêneros teatrais. Por analogia, me parece que seria a mesmíssima coisa que declarar que crônica não é literatura.

A mim, soa irônico que o ataque venha justamente de autores de comédia, gênero que tanto sofreu com um preconceito que durante anos relegou o riso a um lugar menor na dramaturgia. É desconcertante que, no momento em que atingem o tão merecido reconhecimento, estes autores passem a olhar torto para um certo tipo comédia.

Porém, vamos aqui fazer um exercício de imaginação. Digamos que por algum motivo que me escapa cheguemos todos à conclusão de que stand-up não é teatro. Mesmo assim, por que nós, comediantes stand-up, não poderíamos nos apresentar em palcos teatrais? Espetáculo de dança, shows de música, recitais de poesias podem. Mas nós, e só nós, estamos fora? Inexplicável.

É uma questão de reserva de mercado, talvez?

Nesse caso, gostaria de fazer um esclarecimento: a avaliação de que o stand-up compete com outros gêneros cômicos é um tremendo equívoco.

O Clube da Comédia em Pé está em cartaz há cinco anos. Durante todo este tempo, ele e outros grupos que surgiram no período ajudaram a atrair para os teatros de todo o Brasil não apenas o público habitual dos espetáculos teatrais, mas também um grande número de espectadores, sobretudo jovens, que ainda não haviam incorporado o teatro ao seu cotidiano.

Sendo assim, junto com outros grupos de comédia stand-up, o Clube da Comédia em Pé se orgulha de contribuir para a formação de platéia teatral. Portanto, não vejo entre nós e os demais gêneros cômicos uma relação de competição, mas sim de complementaridade.

Ressalto também que o stand-up é uma atividade autossustentada, que vive sem auxílio de patrocínio público ou privado. A receita do Clube da Comédia em Pé se origina da venda de ingressos. Foram mais de 800 apresentações, feitas para um público estimado de 400 mil espectadores, reunidos nos mais diversos locais: teatros, casas de show, bares, lonas culturais, praças públicas, clubes. Até num bingo, quando bingo havia no Brasil, já nos apresentamos. Também lançamos um livro, DVDs e produtos licenciados, que complementam nossa renda. Tirando graça do dia-a-dia, levamos – com licença da palavra – teatro para todo tipo de público, inclusive comunidades carentes de produtos culturais.

Além disso, a prática de abrir o microfone a comediantes locais de todas as idades, gêneros e origens tem ajudado a revelar talentos. Com produção simples e suportada exclusivamente no talento criativo de seus autores/atores, o stand-up se constitui num espetáculo democrático, aberto a quem quer que tenha o dom de rir das dificuldades cotidianas. Ao que um colega chama na referida matéria de “falta de profissionalismo”, chamamos de acesso democrático ao microfone – no sentido literal e matafórico da palavra.

Por fim, gostaria de esclarecer que o uso da expressão Comédia em Pé como tradução literal de stand-up comedy não é adequado. Comédia em Pé é marca registrada, e não se refere a esse tipo de comédia no Brasil, e sim ao grupo ao qual pertenço.

E aqui me despeço com o mesmo carinho com que o comediante stand-up tradicionalmente encerra seu show: obrigado pela atenção, vocês foram uma platéia maravilhosa!

Claudio Torres Gonzaga"

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CONTATO: contratebrunomotta@gmail.com

Um dos principais humoristas stand up no Brasil, Bruno sempre se mete em enrascada. Ator, redator - e se necessário, apresentador e galã de novela - mas sempre com tempo de contar suas aventuras aqui.